A morte da Subjetividade e o luto pela perda de quem se é

Quem disse que a morte se resume ao fim da vida?



Quando alguém se vai, é de reminiscências que o outro vai viver. O olhar tornou-se finito, o perfume saiu do ambiente e aquela vida será para sempre parte da lembrança. Quando alguém se vai, a presença dá espaço à memória permanente daquele existir; a finitude se instala: esvaiu-se aquela vida, permaneceu a eternidade da lembrança.


A morte é uma ruptura. É o corpo que cai, que some, se consome. Mas nem só a morte da matéria, invólucro da alma, é uma ruptura: também a morte do “ser pessoa”, porque a existência só é possível na subjetividade.

Esse tipo de morte é latente na violência familiar, conjugal, nas relações abusivas que permeiam a vida cotidiana do sujeito (NAVES, 2014); é a condição trágica a que o indivíduo está exposto, cujo cativeiro o impede de se deliciar com o desafio diário de ser pessoa (MELLO, 2008). Com a subjetividade, morrem os sonhos, ideais, desejos. O que sobra é a despersonalização que torna possível o completo esquecimento de ser quem se é. O que sobrará dessa existência que transcende o esvaziamento da autonomia? Com a perda da subjetividade, a finitude fica à espreita: o silêncio aguarda a ascensão do cadáver ambulante que se apresentará.


Existirá luto suportável quando da perda do seu eu?.

É possível ultrapassar a devastação da perda de nós mesmos? Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação... (ROCHA, 2014) e estarão os estágios do luto presentes diante da morte da subjetividade? Estará o sujeito, empobrecido e despossuído, inerte à própria eliminação? Saberá o sujeito dar voz ao próprio luto para ser possível o próprio

renascimento?


A morte é rompimento. A morte é silêncio. O corpo que vai não retorna; o coração para, o cérebro emudece, os olhos se fecham para sempre. Estará a subjetividade, morta, também taxada a não voltar nunca mais?


(texto publicado em Boletim Olhares Psi, edição de novembro de 2018, da Faculdade Integrada de Santa Maria - FISMA)


REFERÊNCIAS

MELLO, Fábio de. Quem me roubou de mim: O sequestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa. Editora Canção Nova, São Paulo: 2008.


ROCHA, Ana Lúcia. Perdas e Lutos: quando experimentamos fins de mundos. Revista Alegrar, v. 11, pp. 1-21, junho, 2013. In MADI, Luiz Henrique Garcia et al. As Múltiplas Expressões da Perda. 15º encontro estadual da ABRAPSO - Associação Brasileira de Psicologia Social, 2014. Universidade Estadual de Londrina. Disponível em http://www.encontroregionalsul2014.abrapso.org.br/resources/anais/13/1409232210_ARQUIVO_2014-ABRAPSO-Perdas.pdf. Acesso em 17 jun de 2018.

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